Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

Um Doce Dia

 

Ana sentou-se no maple segurando na mão um livro, sua leitura no presente – Visto do Céu de Alice Sebold.

Uma história já muitas vezes escrita, mas contada de um modo diferente que a estava a entusiasmar.

Depois de se instalar confortavelmente, abriu o livro no lugar do marcador. Era o fim de um capítulo, retirou a marca e virou a página.

Este gesto natural transportou-a de súbito e sem aviso para outra situação.

Em certo dia escrevera um texto que falava sobre o virar de páginas.

Não se tratava das páginas de um livro, embora se lembrasse de com isso ter feito a sua analogia. Falara das páginas da vida que durante os percursos percorridos, tantas vezes, quer custe ou não, é necessário virar.

Saltam-se as pedras que se cruzam no nosso caminho, tropeça-se nelas caindo ou quase caindo, é preciso lutar, fazer um esforço para de novo se erguer e seguir em frente. São metas que se atingem, objectivos que se cumprem, páginas que se viram.

Como seria se num qualquer dia por um acaso voltasse a encontrar aquele sorriso ao mesmo tempo atrevido e carinhoso que lhe  levantava ligeiramente o canto esquerdo da boca, aquele sorriso que lhe lembrava a frescura de uma gota de orvalho colhida pela madrugada.

Como seria sentir sobre si de novo aquele olhar transparente que parecia invadir-lhe a alma querendo descobrir-lhe os segredos.

Como seria olhar aquelas mãos de quem sentira o arrepio de um afago, aquelas mãos que tão bem sabiam deslizar nos contornos da ternura e do desejo.

Como seria ouvir a voz, aquela voz que falava sussurrando de doces suspiros, de encantos tantos, de promessas adivinhadas.

Quanta saudade desmedida vibrava agora em seu peito. Doía o momento! Como doía!

Ana voltou o rosto na direcção da janela. Lá fora as luzes da cidade brilhavam. Notou com espanto pingos de chuva nas vidraças.

Não se apercebera que chovia… eram os primeiros sinais do Outono que se fazia anunciar.

Esquecera o livro. A sua mão continuava pousada sobre as páginas abertas.

Quem sabe porque se lembrara tão intensamente.

Talvez a chuva tivesse trazido consigo as memórias, talvez que tenha sido o odor do Outono, talvez…

Quem pode saber das nuances do talvez.

Ana fechou o livro, encostou-o ao peito abraçando-o. Fechou os olhos e encostou a cabeça para trás deixando descair um pouco o corpo.

Não soube quanto tempo ali ficara.

Sabia apenas que não esquecia.

 

 

Mafalda, 23 de Setembro de 2010


publicado por mafalda-momentos às 14:31
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