Terça-feira, 9 de Março de 2010

Ser Outono...

 

 

“O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura…
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova…”

 

Miguel Torga

 

 

 

Não havia feito o trabalho de casa.

Agora encontrava-se de castigo, no canto da sala, voltada para a parede.

Enquanto via o branco alvo que a pintava, sentia-se…

Humilhada por ter sido punida diante dos outros? Não!

Injustiçada? Também não! Na verdade nem podia! Não tinha cumprido a sua tarefa!

Detestava que isso acontecesse! Não fazia parte do seu modo de ser e estar.

Era certo que não tinha sido completamente culpa sua.

A semana tinha-lhe reservado bastante trabalho e sobretudo um enorme nervosismo. Não lhe sobrara tempo nem imaginação.

Como se sentia então? Era o que continuava se interrogando enquanto via apenas o branco, liso e incolor.

Todos diziam que era teimosa e reconhecia-o. No entanto não entendia como podia essa característica não interferir na sua insegurança. Parecia-lhe um pouco contraditório.

Zangada, irritada consigo própria? Talvez um pouco…

Não lhe tinha sido possível fazê-lo a tempo… mas porque não hoje?

No fundo sentia que podia e devia tê-lo feito.

Considerara que estava fora do tempo, mas reconhecia que afinal o que lhe faltara era coragem, essa mesma coragem que tantas vezes a levava à indecisão e a fazia perder momentos gratificantes de vida.

E agora sentia-se… Entediada! Era isso!

Que outra coisa poderia sentir naquela situação? Tédio, que sensaboria. Tinha que se livrar daquela sensação.

Semicerrou um pouco os olhos, decidiu deixar voar o pensamento até que aquele espaço de tempo se tornasse longínquo.

E aquela simples parede branca transformou-se num enorme ecrã, enchendo-se de vida, cor e luz, odores e sentires.

Acabada a época de Verão, viu-se sentada na areia dourada da praia, agora quase só sua.

Naquele fim de tarde de temperatura amena, olhou o mar que se estendia, deixou que lhe refrescasse os pés, sentiu-lhe o cheiro a maresia, percorreu-o com o olhar até à linha do horizonte e admirou a beleza das cores quentes do pôr-do-sol. Os dias eram agora mais pequenos, mas mais serenos.

As cigarras, durante o dia e os grilos pela noite, haviam cessado o seu canto.

As cores transformavam-se. Das árvores, as folhas perdiam o verde. Ganhavam agora o tom amarelecido, envelhecido, seco e ocre da terra e em breve, ao cair da primeira chuva miudinha, dela se soltaria aquele cheiro a terra molhada com um sabor de vida.

O chão cobrir-se-ia de um novo tapete, um manto de folhas caídas que a brisa fresca soltaria num bailado suave, como se brincasse fazendo-as rodopiar.

Não tardaria também, no início da noite entre o bulício da cidade de quem regressa a casa, a ouvir-se aquele gostoso pregão…

“Quentes e Boas!”

E o fumegar do assador e o cheiro da castanha assada espalhando-se no ar, despertando-nos os sentidos, consolando-nos a alma. Quem resistiria?

- Uma dúzia por favor.

O pacotinho de papel de jornal aquecendo-nos as mãos e lembrando-nos o “ouriço” se abrindo, deixando surgir o fruto apetecido.

No interior das casas, alteram-se as rotinas. Passou o tempo das saladas e das bebidas frescas.

Há tempo para sentar no sofá, um convite para ouvir música, uma calma para ler um livro.

Convive-se agora à volta da mesa tomando um chá, ou um café… quem sabe uma ginjinha, aquecendo e alegrando o coração.

Olhando pela janela, o rio lá ao fundo. Perdeu um pouco de brilho. É agora mais cinzento quando o azul do céu visitado pelas nuvens, se tornou menos solidário, não lhe emprestando os raios de sol. Também ele é menos intenso.

É outra estação do ano que nasce. O Outono. Esse amigo transitório entre o Verão e o Inverno.

É belo? Assim o vejo. É triste? Não o sinto. É melancolia que nos visita e nos transporta ao sonho para quem, com intensidade, ousa viver. É melodia de poetas.

Serei eu uma alma de Outono?

E logo me vem à ideia as cores do arco-íris.

Vejo-as nas flores que saltam da terra nos campos e nos jardins. Vejo-as nas floristas em molhinhos coloridos. Vejo-as nas montras das lojas, nas roupas que vamos usar. Vejo-as reflectidas nos olhos e no sorriso das pessoas que passam.

O verde volta a se abrir.

Nossos passos são mais leves. Nascem os planos de visitar outros lugares.

Esvoaçam as borboletas e os bandos de pardais. O sol, de calor brando, de novo volta a brilhar espelhando-se, no rio, no mar, no nosso olhar, numa harmonia vibrante como aquela cotovia que começa a cantar, símbolo do começo da primavera, do novo dia, da alegria e da esperança.

E pela noite o rouxinol, encantando os namorados.

… Uma alma de Outono? Não! Serei sim uma alma amante da Primavera.

Pssst… que fazes tu aí?

Olhei de soslaio para a janela à minha direita. Um raio de sol bem convidativo entrava por ela. Lá fora o canteiro dos girassóis ondulava ao vento e a sua bela flor girava procurando avidamente o seu astro rei.

Sorrindo respondi

- Nada, só me lembrei de ti.

 

 

Mafalda, 9 de Março de 2010


publicado por mafalda-momentos às 23:43
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De Existe um Olhar a 12 de Março de 2010 às 19:53
Olá Mafalda
Por instante recordei neste texto maravilhoso, um outono que ficou para trás ,mas que se fez presente nesta descrição maravilhosa.
E quem disser que é uma estação triste, que venha aqui ler e logo se aperceberá que a cor, a vida, a alegria se vive aqui.
Eu adoro esta estação e fiquei deslumbrada com as tuas palavras.
Beijos
Manu


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