Segunda-feira, 15 de Janeiro de 2007

Experiências

 

Dei comigo a guiar o carro na Via Rápida rumo à Costa da Caparica.

Seria por volta do meio dia. E o dia estava de Sol mas não aberto. Havia aqui e ali umas nuvens brancas e ao longe no horizonte uma barra cinzenta de névoa.

- Onde vou? Perguntei-me.

- Ver o Mar! Respondi-me.

E assim vi-me a estacionar junto ao paredão. Poucos carros havia.

Ouvindo o som das ondas, subi as escadas dum acesso junto a um dos bares um pouco ansiosa, confesso, com o que iria encontrar. As notícias dos temporais deste Inverno tinham sido desoladoras.

Ao chegar ao cimo contemplei em frente, admirável na sua grandeza, a imensidão de água que se estende para lá de onde os nossos olhos podem alcançar, brilhando com a luz que o Sol lhe empresta, esbarrando-se com toda a sua força em ondas altas contidas entre os pontões feitos pelo homem, que ao rebentarem se espraiavam numa longa e espessa espuma, tão branca que não fora pela sua movimentação e barulho caracteristico,  cavo,  profundo, a lembrar – Cuidado! Eu estou aqui, poderia parecer um manto de neve, leve e silencioso.

Ali estava o Mar!

Desde o Verão que o não via e tinha saudades. Tinha sim. Podia senti-las. Que outra razão aliás, me teria levado até ali sem quase dar conta?

Saudades do fascínio que o mar exerce em mim! Não seria capaz de viver num sítio onde não houvesse mar. Hábito porque aqui nasci e sempre vivi? Não sei, nem poderei saber.

Mas o mais engraçado é que eu tenho receio da água. E digo receio com vergonha de dizer medo. Ela não é de facto o meu meio ambiente de eleição.

Mas poder contemplá-la, isso me deleita. Deixo-me envolver na magia da contemplação da sua vastidão que se perde na linha do horizonte, do seu toque, dos seus salpicos trazidos pelo vento, no seu gosto salgado, no seu cheiro a maresia, no som do seu vai e vem, ora marujando hospitaleiro, ora turbulento ameaçador e me perco do mundo absorta pelos meus cinco sentidos.

Afinal, ou finalmente os pontões estavam arranjados. Comecei a caminhar pelo paredão com o olhar fixo no mar. Um ou dois casais, possivelmente já reformados, passeavam também. De resto só surfistas. E ao olhá-los lembrei-me do meu filho. Ele também faz surf.

- Que sejas feliz amor – murmurei baixinho.

Sinto admiração por todas estas pessoas adeptas dos desportos radicais, mas principalmente de todos os que são praticados na água, desde o surf ao rafting.

Jamais nem em imaginação eu faria algo semelhante. Nem um simples cruzeiro, que tantas pessoas adoram fazer, seria alguma vez uma opção de férias para mim.

Já mais fácil seria aventurar-me a fazer por exemplo parapent, ou uma subida de balão. Não sózinha e também não afirmo, mas acho que sim e apesar da adrenalina disparar de certeza eu iria apreciar e gostar.

Continuei andando com prazer decidida a fazer uma paragem no fim.

Em certo momento passei por uma inscrição feita no chão. Abrandei para poder lê-la. Chamava a atenção porque estava escrita a branco com letras muito bem desenhadas.

Eis o que li:

- MÃE

- AMO-TE MUITO!

Surpresa e comovida pois não é o tipo de coisas que costumamos encontrar, pensei na mãe que tinha a felicidade de ter uma filha, ou um filho que expressasse pública e anónimamente o seu sentimento tão lindo. Saberia a mãe? Quem dera que sim.

A ti que escreveste, quem quer que sejas, obrigada por existires, porque assim deveria ser o mundo.

E avançando devagarinho, saboreando a contemplação cheguei ao final do paredão. Continuando seria o principio da praia do Inatel pegada com a praia de S. João, um extenso areal que faz em plena época de Verão as delícias de quem procura na praia o repouso merecido e desejado de umas férias bem passadas.

Mas praia não a vi. Não há! Acabou! O mar engoliu-a!

Como será no Verão? Será ele complacente e recolherá as suas águas deixando que o homem que o combate disfrute os seus prazeres?

Fiquei ali olhando as ondas para mim imensas rebentando umas junto às rochas, outras mais atrás e outras ainda mais ao largo. Via-se a rebentação na Torre do Bugio.

Dois surfistas brincavam. E lá vinha um que apanhou uma onda. O outro estava parado  mais longe, em  linha com o final do pontão. Pareceu-me demasiado perto das rochas. Estaria em dificuldade? O outro que tinha apanhado a onda chegou quase ao fim da água. Pensei que fosse sair. Mas não.

Ali onde se juntavam as águas das várias ondas fazia um remoinho com corrente forte em direcção às rochas do pontão. Vi-o  nadar nesse sentido não contrariando a corrente e a poucos metros das rochas mudou o rumo e paralelamente a estas, foi nadando até chegar ao fim e perto do seu companheiro.

À distância pelo mecher dos braços apontando, pareceu-me que conversavam. E os dois juntos entraram ainda mais no mar, saindo de tão perto das rochas, esperando pelas ondas que continuamente vinham para poderem escolher a melhor e “pegá-la”.

Fiquei mais tranquila. Pelo que tinha observado pelo menos um deles sabia o que fazer, pois fácilmente veio e voltou. É preciso saber como agir dentro de água, conhecer as correntes habituais e saber ver as que constantemente mudam e aproveitá-las. Ajudaria o companheiro com a sua experiência caso os meus receios fossem fundados e não apenas fruto do meu respeito pela vontade própria do mar.

EXPERIÂNCIA???

Como foi que me afastei do tema do meu título?

Entusiasmei-me em deambulações de sentimentos e saudades acumuladas, deixei o coração falar e perdi-me da realidade da vida.

Vida? Que digo eu? O que é a vida?

O que é a vida senão um acumular de experiências vividas umas após as outras, diferentes, boas ou más, que nos fazem sentir momentos felizes ou infelizes e nos vão deixando recordações ou mágoas que lembramos com saudade ou tristeza?

Que fazemos nós com todas elas? Aprendemos e nessa aprendizagem  que guardamos como reliquias, só se formos tolos não as consideramos assim, enriquecemos o nosso EU e cada vez que um sentimento chega, que uma saudade bate, que um beijo nos toca, que um abraço nos conforta, que uma palavra soa nos nossos ouvidos, que um olhar nos enfrenta, enfim cada segundo da nossa vida é uma experiência.

Cabe-nos a nós, os seres inteligentes deste planeta, saber vivê-la, interpretá-la e guardá-la, ainda que ela seja arrasadora, experiência por experiência, cada uma por cima da última, no seu devido lugar, como se de um arquivo se tratasse, para que possamos localizá-la na hora, no minuto, no segundo que for necessária. Porque todas juntas são a nossa própria vida.

Então eu posso dizer com segurança, que afinal não me perdi e não fugi ao tema, porque tudo que vivemos é uma experiência.

 

 

Mafalda, 15 de Janeiro de 2007

(Foto minha) 

 

 


publicado por mafalda-momentos às 16:47
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1 comentário:
De Fátima a 30 de Dezembro de 2008 às 15:03
Experiencias...Sim minha amiga, tudo o que sentimos, tocamos, olhamos são momentos unicos que guardamos como segredos no coração. Não podemos escolher entre as boas e as más. Todas elas se conjugam, se completam e fazem de nos aquilo que somos. Não fugiste ao tema e mais...tiveste a capacidade de envolver nas tuas palavras e contigo pareceu-me, estar a ver aquele mar imenso...
É bom ler-te...
Um beijo com carinho.
Fátima


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