Sábado, 10 de Maio de 2008

Uma lágrima

 

 

Olhei surpresa aquele rosto onde uma lágrima deslizava suavemente seguindo o curso da face, contornando seu queixo, esvaindo-se no pescoço e finalmente escondendo-se no colar que o enfeitava.

Era apenas uma gota de água cristalina e salgada. Deixou marcado um sulco molhado. Brotou de uma olhar triste, magoado, mas curiosamente, sereno.

Não conseguia desviar meus olhos.

- Porque chora? Perguntaram-me.

- Não sei! Talvez saudade, ou se sinta só, quem sabe?

- Se sinta só? Três filhos adultos! Uma casa cheia isso sim! Há sempre música, televisão! Às vezes uma barulheira! 

- E desde quando filho adulto faz companhia, quebra solidão? Filho segue sua vida. Também já fizemos o mesmo.

Não houve resposta. Fêz-se silêncio.

E eu continuava olhando aquele rosto e quanto mais o observava, mais achava já o ter visto. Reconhecia-o e ao memo tempo não me lembrava.

Era rara a sensação, incomodava, mas fascinava também.

Nossos olhares se fixavam e eu continuava procurando nas minhas lembranças algo que me levasse até aquele rosto.

- Eu conheci-te? Estás diferente?

Um sorriso franco desenhou sua boca.

- É verdade conheceste-me. Assim tanto que não dá para lembrar?

Foi a voz que saiu do sorriso que me fez recordar.

- Não é possível! Não fosse pelo sorriso e o som da tua voz! Teu olhar não me deixava...

Lembro-me de ti. Claro que me lembro. Como poderia...Mas que aconteceu àquele brilho que teus olhos espalhavam em teu rosto?

Lembro-me dos teus olhos grandes reflectindo um olhar vivo, irrequieto e curioso, um pouco travesso até. Era cheio de esperança e alegre. Com ele e esse sorriso sempre desenhado em teus lábios, brindavas todos que contigo conviviam.

Há quanto tempo não olho para ti de verdade! Só hoje notei a diferença? Que pode ter acontecido?

- Nada. Simplesmente vivi a vida dos outros e nela me esqueci de mim mesma. Não que me arrependa. Mas agora sinto-me só.

- Tenho a campainha a tocar. Vou ter de ir, mas...

- Vai e não voltes para me ver. Pensa em ti e luta por ti.

Era o carteiro a entregar a revista de Skateboard que não cabia na caixa do correio. Apressei-me a arrumá-la no sitío.

E ao dirigir-me para...ouvi em pensamento a última frase do diálogo.

Estava sómente a ver-me ao espelho. 

 

 

Mafalda, 10 de Maio de 2008


publicado por mafalda-momentos às 21:31
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