Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

Abstracto

 

 

- Fica comigo esta noite.

- Fiquei ontem. Divertimo-nos. Lembras-te?

- Claro que sim! Mas hoje preciso mais. Fica, peço-te.

- E que farei eu aqui, sabes-me dizer?

- Fazias-me companhia. Não vês como estou só?

- Acaso alguma vez me viste com alguém assim, como tu te sentes hoje?

- Não, isso é verdade, mas contigo eu mudo.

- Acho que não. Vou andando.

- Espera! Não vás. Podias dançar para mim. Eu ouvia-te cantarolar enquanto rodopiavas, seguia as sombras caprichosas do teu vulto e sorria. Admirava os movimentos do teu corpo descalço reflectidos no esvoaçar do teu vestido amplo e branco numa imagem de…

- E choravas!

- Não, prometo que não. Se ficares eu juro que não.

- Conheço esse olhar. Sabes que não nasci para isto. Nasci para cantar, sorrir, dançar, saltar, divertir-me, rir, admirar o belo, ser alegre. Que mal há nisso?

- Absolutamente nenhum! Por isso me fazes bem.

- A minha finalidade é viver, não é consolar.

Hoje não é meu dia de ficar. Fala com a Santa Bondade ou a D. Compreensão. Elas sim estão bem para ti.

Agora desculpa, mas vou mesmo sair.

Fechou a porta atrás de si e foi embora a Maria Alegria.

Ficou o silêncio.

Olhei para o lado, vi a Santa Bondade que deitada dormitava. Não me atrevi a incomodá-la.

O eco violento devolveu-me as palavras – “E choravas!”.

Levantei-me de rompante, rapidamente percorri a meia dúzia de passos que me levaram à janela aberta.

- Pois agora não choro! É que não choro mesmo! Nem que eu tenha que partir a loiça toda, mas nem uma lágrima sequer há-de assomar aos meus olhos.

Da rua chegou-me o ar fresco e um pouco húmido da noite. Arrepiei-me e de certo modo acordei.

Nem que eu parta a loiça toda – pensei.

Que prazer me daria agarrar nos pratos de tantos anos e atirá-los janela fora, ouvi-los estilhaçarem-se em mil pedaços na rua.

Uma a uma acender-se-iam as luzes das casas e cabeças espreitariam querendo perceber o que se passava.

Talvez chamassem a polícia pensando tratar-se de violência doméstica, ou me apelidassem de louca por aquele acto isolado.

Porque não podemos fazer coisas diferentes sem sermos logo catalogados?

Além disso trazer-me-ia um outro prazer. Ter um novo look na minha loiça.

Doida não estou ainda, mas talvez não falte muito reflecti, pois não consigo deixar de pensar em quanta satisfação esse acto me traria.

Será normal?

Normal? Que convenções nos atiram ou afastam da normalidade?

Ser normal é não ser livre.

Mas a minha liberdade acaba onde começa a liberdade dos outros.

Devo então sentir-me prisioneira?

O relógio bateu as duas horas da madrugada e lá no céu a Lua piscou-me o olho.

Foi então que compreendi e desatei a rir à gargalhada.

- Eu logo vi que já eram horas das filosofias baratas e de alucinações.

E enquanto ria divertida do ridículo dos meus pensamentos, ouvi bater à porta.

Não abri, nem espreitei para ver quem era.

Disse apenas:

- Estou bem. Agora não preciso de ti. Já parti a loiça toda.

 

 

Mafalda, 15 de Julho de 2010

 

 

(foto da net)

 


publicado por mafalda-momentos às 21:05
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10 comentários:
De inoutyou a 15 de Julho de 2010 às 23:12

Amiga Mafalda,

será que este trecho faz parte de algum romance teu??

Beijinhos
Alex


De mafalda-momentos a 20 de Julho de 2010 às 08:07
Olá Alex

Agora deixaste-me a rir.
De facto é um trecho escriro por mim, mas não faz parte de nenhum romance que não tenho capacidade para isso.
Bem que gostaria de ter e tocaste num ponto que faz parte de um sonho meu, daqueles que se ficam mesmo só por isso... por um sonho.

Beijinhos
Mafalda


De luadoceu a 16 de Julho de 2010 às 14:18
Mafalda
Mereces alguem que te faça feliz
Se o sentir que tiveste e de chorar e partir a loiça, mesmo que gostes ou o ames, mereces outro homem que te faça feliz e não sofrer.

Sei que conselhos são faceis, gratuitos, não pedidos, mas não levados a letra, pq todos temos sentimentos e somos todos diferentes.

Mas faz teu luto,parte a louça( c tu mencionas cuidado com a policia,nao va vizinhos queixarem se...eheheh), chora, mas da teu coração a que merece, ele nao merece.Deixou te so e bateu com a porta,sem olhar para tras e disse que ele vive,mas nao consola. Quem vive e ama, consola na mesma. Nao e desculpa viver e nao consolar.Ate os amigos o fazem, qto mais quem ama, quem ama consola.

Pediste,nao ficou contigo.

Conheço uma historia assime  bem sofrida, doeu para caramba, insisti,persisti,soo soifri,so obtive silencio (anos) fiz luto, demorou, mas hoje vindo do nada, tenho sua amizade, meu esquecimento,pq tenho outra vida bem melhor, pq atingi objectivo: amizade,nada mais.

Pois.Normal e viver em sociedade é muito,mas muito complicado

Mafalda....mereces ser feliz e sorrir para a vida e para dentrod e ti

Força e caminha para a frente e da sempre valor a ti mesma

Desculpa o extenso das palavras e qq coisa q te tenha magoado da minha parte

beijinhos


De mafalda-momentos a 20 de Julho de 2010 às 08:17

Ó Luazinha
Obrigada pelo teu cuidado e carinho.

Quase todos nós temos uma história de abandono para contar e lamento muito que tu também a tenhas e que tenha sido assim tão sofrida. Mas agora que tudo está bem contigo não vamos mais falar nem pensar nisso que já passou.

Fiquei comovida com a tua preocupação comigo, mas esta história que aqui deixo, felizmente não é real. É apenas imaginada e simbólica.
Fica tranquila e sorri que é como desejo ver-te sempre.

Beijinhos



De libel a 16 de Julho de 2010 às 14:36
Aiiiiii...Santa Bondade, de repente fizeste com que recuasse no tempo, fui até à adolescência de 4 raparigas no seu fervor de emoções, tadinha da minha avó, que Deus a tenha, a única forma de nos conseguir separar das grandes bulhas em que nos envolviamos era partindo a loiça toda.

Essa sim, fartava-se de renovar o stock de loiça..LOLLLL..pelo menos variava bastante os modelitos e as refeições tinham outro sabor, e olha que era remédio santo, catalogada ou não de doida varrida, o certo é que funcionava.

Pois, menina Mafalda..2 da madrugada, já devias estar a xonar sabias??...o normal seria deitar cedo e cedo erguer, achas que alguém o faz??...pois..seremos todos anormais??..

Atreve-te miúda, sem atrevimento nada feito!!..a alegria irá visitar-te mais vezes, nem que seja para apanhar os cactos.

Beijokas


De mafalda-momentos a 20 de Julho de 2010 às 08:57

Libel
Bem que a tadinha da tua avózinha deve ter precisado da santa bondade, para pôr em sentido 4 raparigas que imagino todas "diabretes" como tu, sempre prontas a inventar.

2 da madrugada... eu sei que já passou a hora das bruxas, mas não sei se às vezes, pelo menos algumas não ficarão por aí à solta, só para nos pregarem partidas e imaginar histórias mirambulantes.

Pois, tás-me a ver ir na conversa do ditado à espera de crescer mais??? Agora é ao contrário... por isso posso ser "anormal" à vontade... eheheh...

Momento a momento, pedacinho  sobre pedacinho lá vamos moldando e construindo nosso castelo e quantos mais sentimentos lhe juntarmos, mais ameias terão as suas fortes muralhas que nos protejem, mas nos deixam atrever a espreitar por elas e vigiar quem dele se aproxima.
Assim podemos sempre deixar entrar, ou barrar, apenas o que nos apetecer, baixando ou levantando a ponte levadiça do castelo...
ahahahah... isto ainda devem ser influências da feira medieval.

A maria alegria é meia doida, mas boa mocinha e ela vem ver-me muitas vezes... vou pedir-lhe que um dia destes traga com ela a timida coragem para me ajudar a atrever e sentir esse gostinho de varrer os cacos todos.

Se tiveres loiça pra partir, podes mandar pra cá... ahahahah

Beijokas miuda gira



De Paulo a 16 de Julho de 2010 às 17:14
Olá Mafalda

Que lindo texto aqui partilhaste, está com sentimento profundo, parabéns!

Se é um extracto de outro autor, obrigado pela partilha, faz bem aos olhos e ao coração.

Se és tu a autora, as tuas mãos são de ouro e nem te apercebes que escreveste uma coisa fabulosa digna de ser colocada num livro para muitos mais partilharem. Vai para a frente Mulher, que és força da natureza de actos e palavras.

Beijinho e bom fim de semana


De mafalda-momentos a 20 de Julho de 2010 às 09:37
Paulo

Ó pra mim ...  ...    

Foi assim que me deixaste com tamanho elogio... "mãos de ouro"... até fiquei meia sem jeito, sem saber o que falar... é boa vontade tua... ah, mas olha que se fosse verdade, se calhar já estariam penhoradas, sempre rendiam alguns euritos... ahahah... temos que ir brincando que a vida é curta.

O texto é meu sim... se não fosse, teria indicado de onde tinha saido... dado que a imaginação nos leva até onde quisermos,    saiu aqui esta "historinha" simples que tu com o olhar da amizade, achaste de fabulosa e com o teu comentário o sol aqui brilhou   .

E eu só tenho que agradecer-te Paulo por toda a atenção que dás a este espaço meu e agradecer o feliz dia que a teu blog fui ter, onde tanto aprendo de coisas a que nem dava importância... porque o saber não ocupa lugar e enriquece o nosso ser.

Beijinhos


De Existe um Olhar a 17 de Julho de 2010 às 00:55
Maria Alegria, arrependida, voltou.
Contigo cantou, falou das estrelas, de noites de luar, de arco-íris, de sonhos, de viagens de tanta coisa falou que a louça ficou, os vizinhos continuaram dormindo, o relógio continuou preguiçosamente a melodia suave do tempo e as gargalhadas soaram como um eco pela noite dentro, sem que uma lágrima rolasse desse teu rosto, porque afinal descobriste que nunca estás só...por isso estou aqui.
Com ternura
carinho
amizade
sorrisos
Alegria
e..... um beijo para te desejar um fim de semana maravilhoso.

Manu


De mafalda-momentos a 20 de Julho de 2010 às 10:07
É o que nos vale... é que a Maria Alegria se arrepende e felizmente volta sempre que a chamamos, sem ressentimentos, renovada e completamente  esquecida daquilo que foi triste.
Não usa relógio, nem tem calendário... chega sem se importar da hora e em qualquer momento se instala, sem usar de cerimónia ou preconceito.
Sempre igual a si própria envolve-nos naquele abraço.
E na sua grandiosidade pode estar em qualquer lado... um pouco aqui... outro ali... está em ti... na serenidade das palavras que me deixas... nesse teu sorriso sempre presente que me ofereces.

Manu é uma alegria conhecer-te miuda doce (enganei-me... queria dizer refilona...).
Beijos


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