Domingo, 22 de Novembro de 2009

Ficção e realidade.

 

 

 

Lembro-me da confusão que me fazia e do que sentia quando às vezes ao ver filmes, em cuja história havia um familiar – pai ou mãe que falecia, deixando crianças pequenas ou até já a entrarem na fase da adolescência, vê-los cumprir todas aquelas cerimónias inerentes á morte. E nos funerais lá estavam á beira da campa, crianças de três, cinco, oito, dez, treze, catorze anos, que importa a idade... – são crianças, as mais pequenas de mão dada com o pai ou a mãe que sózinho ficava, mas todos juntos e eu pensando que nunca faria filhos meus passarem por aquele trauma e que nenhum adulto no seu perfeito juízo o faria. Aquilo só mesmo em filmes é que acontecia.

 

Sempre lidei mal com o tema morte. Entrar num cemitério era quase cena proibitiva para mim e tomei como certo, que aquilo que era válido para mim, o seria também para todos. E foi assim que agi quando o problema me bateu á porta bem de perto, convicta de que não poderia estar mais certa.

Uma pessoa perfeita não existe e como tal eu não fujo à regra e naturalmente cometo erros. A convicção que afirmei no parágrafo anterior foi um deles.

É quase inexplicavel para mim a admiração, mas sobretudo a emoção que experimentei quando sobre este assunto fui interrogada, confrontada, contestada, mostrando-me o equívoco da minha verdade. Confesso que chorei lágrimas bem tristes, que não dormi, que não deixei de pensar contínuamente no assunto.

Que errara noutro aspecto eu já havia percebido. Que devia ter cometido qualquer outro erro no atravessar do tempo, sem conseguir aperceber-me onde, também já havia sido alvo de algumas reflexões minhas, mas aqui...! Jamais me passara pela cabeça.

 

Ás vezes precisamos de tempo.

 

Decidi pois que era tempo de fazer uma paragem e reflectir no assunto causa/consequência. Parei de escrever... se o fizesse só poderia ter saído algo muito negro e parei com tudo o que me foi possível, para que ninguém percebesse o que se passava comigo.

Pesquisei na net artigos de psicólogos sobre o assunto. Li vários. Pensei até eu própria consultar um, ideia que acabei por pôr de parte e após várias leituras e análises, acabei por chegar á triste conclusão que de facto eu estava errada.

Dizem eles e nisso são unânimes, que todos estes rituais da morte não existem por acaso. Eles fazem parte da primeira fase do luto e são necessários, úteis, practicamente imprescindiveis. São eles que em primeiro lugar, naquele espaço de tempo, nos ajudam a aceitar a compreender, a interiorizar que jamais voltaremos a ver aquela pessoa.

Dizem, por exemplo, que é extremamente difícil e doloroso fazer o luto de uma pessoa cujo corpo nunca aparece, havendo mesmo casos em que as pessoas nunca o conseguem fazer tornando a vida insuportável.

 

Ainda mais triste fiquei e senti complexos de culpa que em nada ajudam a nossa saúde mental. Continuava a ser tempo de reflexão e perguntei-me com quem mais teria eu cometido semelhante erro. Decidi que por muito que custasse, havia que falar e abordar o assunto com os restantes personagens.

Esperando a mesma reacção, voltei a ficar admirada, pois nada havia de semelhante. Encontrei nas respostas até palavras de consolo.

Não há dúvida que não existe um ser humano igual a qualquer outro.

 

Segui ainda com o meu tempo de reflexão. Havia que assimilar, interpretar e conjugar todos estes factores.

E foi assim que conclui que embora tendo errado, o meu erro não foi sentido de igual modo, sendo verdade que até nem chegou a ser erro. Dependeu de como cada um o viveu.

Também de nada servia o sentimento de culpa, nada remediava e além disso acredito que após o desabafo o trauma que possa ter provocado estará resolvido. Desejo-o muito e se tudo isto o fez passar, dou por muito bem passada, toda esta minha insegurança.

E por fim, o que fiz foi com a intenção de proteger, de evitar dor. Errado ou certo foi por amor.

Como posso então ser juldada por isso? Como posso então ficar agarrada a essa sensação de desconforto, de desilusão, de pesar, de desiquilibrio emocional? Isso não só não me ajudaria a mim, como não me permitiria ajudar outro alguém, caso ainda fosse preciso. Acredito que entendeu e aceitou as minhas razões. Há que pôr um ponto final e seguir em frente, porque a vida não está no ontem, mas sim no hoje.

 

É possível que este seja um tema um tanto mórbido, mas a verdade é que neste tempo de paragem tenho pensado muito nela. Se é a coisa mais certa que temos assim que nascemos, porque a tememos tanto? Porque não a conseguimos encarar como um acto natural? Porque nunca pensanos que um dia ela virá? Porque nos parece que a nós não nos acontecerá?

 

Só pode ser porque viver é bom!

Gostaria muito que todos pudessemos ter de verdade, esta convicção.

 

Mafalda, 22 de Novembro de 2009

(foto minha)

publicado por mafalda-momentos às 20:50
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10 comentários:
De Jorge Soares a 23 de Novembro de 2009 às 00:16
Olá, admiro essa tua capacidade de introspecção, não és perfeita, como não é ninguém, mas aceitar que erramos e e assumir o erro não está ao alcance de todos.

Parabéns pela reflexão.

Boa semana
Jorge Soares


De mafalda-momentos a 23 de Novembro de 2009 às 13:35
Olá Jorge
É bom entrar e encontrar-te aqui neste lugar tão diferente do teu que é cheio de vida, de beleza, de encanto, de luz, brilho e cor. Tu sabes que gosto muito de passear por lá.

Sim é verdade que todos erramos e é bom reconhecer, mas às vezes dói reconhecer que errámos com pessoas tão importantes para nós e em assuntos tão delicados como foi o caso.
Obrigada pelas tuas palavras.
E pronto se alguma coisa foi possível remediar acho que se conseguiu. Já não é mau.
Costuma dizer-se que da discussão nasce a luz, não foi propriamente discussão, mas não há dúvida que só falando é que pode haver entendimento. Pena que às vezes se leve tanto tempo com desentendimentos guardados.
Enfim, há que continuar porque há vida à nossa frente para não desperdiçar.

Boa semana também para ti.


De josé cunha a 24 de Novembro de 2009 às 00:53
A foto que ilustra o desenvolvimento deste tema - o do nosso destino comum - de rara beleza, é bem expressiva naquilo que a Natureza tem de mais admirável : a viagem para aquele País tão distante, onde apenas havemos de levar o que somos e nunca o que temos.
Mas é na recordação e no silêncio que habita em nós, que nos lembramos e os recordamos tantas vezes!


De mafalda-momentos a 27 de Novembro de 2009 às 10:59
Olá Zé
O recordar, com maior ou menor tristeza é natural. Também é natural nunca esquecer certos acontecimentos.
Reconhecer e assumir os nossos possíveis erros continua a ser natural.
Mas o que dói é saber que com esses erros prejudicámos alguém que nos é tão querido, ainda que tenhamos agido de forma reflectida, pensando que era o melhor. Cada pessoa é diferente da outra. Agi de igual forma para todos e no entanto alguém sentiu nisso uma forma de abandono.
Um beijinho e obrigada


De libel a 24 de Novembro de 2009 às 11:53
Sabes Mafalda ninguém está preparado para essa realidade, apesar de ser a coisa mais certa, é também aquela que tentamos passe despercebida, pois a vida trás movimento, liberdade, experiências, alegrias, tristezas..é uma passadeira rolante, que sabemos perfeitamente tem um final, mas enquanto puder rolar, quanto mais tempo nos deixar rolar, mais emoções levamos para contar ....
É claro que todos nós estamos conscientes dessa realidade, mas fazer disso pano de fundo não seria uma boa ideia, em vez de vivermos, amargávamos.
Quanto aos erros, muitas vezes damos connosco a pensar que foram inrreparáveis, mas aos olhos do coração são apenas mais uma experiência que nos aconteceu e que nos vai servir de aprendizagem. Errar é humano e muitas vezes para chegar à sabedoria dos melhores procedimentos temos que passar por eles, só assim conseguimos interiorizar, reflectir e agir em conformidade. Por vezes o coração fala mais alto "impedindo-nos" de tomar decisões mais coerentes, mas quem consegue prever as contrariedades, quem consegue antever os erros, quem consegue sempre a atitude certa??..A vida é um salto no escuro e as nossas atitudes são um reflexo imediato pela sobrevivência.

Beijokas Mafalda fica bem, estou por aqui...e não pares no tempo....avança...avança....


De mafalda-momentos a 27 de Novembro de 2009 às 11:23
Já estou a andar... o pra mim... tás a ver?
Minha linda também eu me atraso nas respostas, por isso...
Tens muita razão sobretudo porque todos somos e sentimos de maneira diferente.
Para uns fizemos asneira, para outros o correcto.
De qualquer jeito é sempre dificil ver o que de errado possamos ter feito a alguém a quem dedicámos a nossa vida.
Mas ainda bem que, mesmo ao fim de tanto tempo, ele se resolveu a ser frontal. Acho que lhe permitiu ultrapassar esse nó por desfazer e eu prefiro cem mil vezes que o tenha passado para mim. Eu minha amiga já tou calejada e vou à luta.
Até pareço o D. Afonso Henriques a manejar a espada!
Ahahahah
Para soprar as nuvens cinzentas não há como um sopro de vento com um pouquinho de humor. Hoje até vou passar pela esplanada para ver o que de divertido lá se passa.
Um beijinho para ti
Mafalda


De cumplicedotempo a 25 de Novembro de 2009 às 20:16
a morte é e será sempre um assunto difícil de lidar para ti e para todos nos
a vida e demasiado bela e ver quem amamos partir e demasiado triste , o sentimento que nos percorre e muitas vezes incontrastável e talvez por isso os nossos actos e decisões na altura não sejam sempre as mais correcta
mas tal como no nosso dia a dia só devemos julgar ou criticar seja quem for dentro da acção e dos porquês , pois cada situação as tem
neste teu caso como bem o disseste tomaste as tuas decisões por amor e de forma que na tua sensatez encontraste para protegeres quem amas, que tal como tu tinha uma vida para seguir em frente
fizeste o na tua consciência e tu melhor que ninguém sabes que o fizeste com o único intuito de não ver essa pessoa sofre tal tu sofrias no facto de ter que encarar este rituais , por isso essa pessoa terá que te julgar por este acto e esse porque
e com certeza entendera qual o objectivo
na minha opinião amiga , e agora sem te julgar logicamente , pois cada um de nos encara as coisas de forma diferente , acredito sim no ritual e na mensagem que ele nos traz , a forma simbólico e muito directa que nos da para enfrentar a morte tal como ela é , custa muito sim passar por esse momento , mas sem duvida e o único caminho que nos leva a aceitação dos factos , fugir dele ou optar por outros caminhos e só uma forma de adiar a realidade

introspecção e pararmos e uma boa forma de nos conhecer-mos e entremos melhor , nunca deixes de o fazer , chora , grita ri te sem vontade , escreve o que te vier a alma , desabafa
verás que encontraras sempre uma resposta no meio de cada acto
e com eles alcançaras os teus propósitos

bem haja para ti minha amiga

beijo cumplice


De mafalda-momentos a 27 de Novembro de 2009 às 11:55
Hoje eu já interiorizei todos os porquês e aceito, aceito não, estou mesmo convicta de que todos eles são necessários, benéficos e não prejudiciais.
A mim pessoalmente continuam a causar-me um certo desconforto, mas aprendi que o melhor é deixar que cada um decida por si.
Custa saber que magoámos alguém muito especial, que por acaso é meu filho e tenho muita pena que só agora ele tenha conseguido enfrentar-me pois que isso o aliviou e poderia tê-lo sentido muito mais cedo, e acho que ele também entendeu a minha parte.
Cúmplice, escrever para mim funciona também como uma espécie de terapia, daí a razão de aqui ter deixado este texto. Foi o culminar de um desabafo que me fazia falta.
Tu sabes encontrar as palavras e os conceitos sensíveis e de bom senso que transmitem paz e tranquilidade.
Obrigada pela tua cumplicidade e por me dedicares um pouquinho do teu tempo.
Um beijinho para ti
Mafalda


De Fátima a 6 de Dezembro de 2009 às 16:32
A morte faz parte da vida. Apenas não pensamos nela porque a vida é cheia de momentos lindos que queremos infinitos. Mas nada é infinito...tudo tem um fim e ao longo da vida passamos por varios lutos, uns mais importantes que outros mas que nos marcam para sempre e cada um vai modificando o nosso pensamento... Não sou a favor dos rituais que todos julgam ser o mais certo. Alguém me disse, um dia, que só morremos memso quando somos esquecidos...E nós não esqueçemos quem amamos. Prefiro guardar na memoria, todos os momentos felizes e todos os sorrisos... prefiro a saudade de um abraço, de um beijo... prefiro continuar a ouvir a voz do que um silencio profundamente frio... A despedida é feita no coração e nas lagrimas que não conseguimos segurar... Participar nessas cerimonias e rituais só servem para mutilar aquilo que nos foi dado...a felicicadade de ter feito parte da vida que se foi mas que permanece em nós, no nosso coração...Quando alguém se despede, minha amiga, deixa em nós uma parte de si...diferente e unica em cada um dos que amou... É nisso que eu acredito... Um beijo com carinho.


De mafalda-momentos a 12 de Dezembro de 2009 às 12:31
Olá minha linda amiga
É nas dúvidas que nos surgem que acabamos por encontrar o nosso próprio sentir e também o sentir dos outros... e não há dúvida também que cada um sente e age de modo diferente. Então só tenho que compreender e aceitar.
A morte faz parte da vida como muito bem dizes e nela, com rituais ou não, quem parte leva sempre um pedaço de nós, mas deixa-nos também muitos pedacinhos de si... nas recordações guardadas e lembradas e é por isso que em nossos corações... aí... continua vivendo....
Obrigada Fátima pelo teu enorme carinho.
Um grande beijinho para ti


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