Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007

Surpresas

 

Surpresa, enquanto palavra, revela-se no nosso pensamento como sendo um acontecimento agradável, com vários cambiantes. Por vezes é hilariante, outras deliciosa e ainda algumas, inesquecível.

Já o mesmo não é verdade quando a palavra passa à acção.

Aí o tema tem duas facetas. Pode ir de um extremo ao outro. Ser a mais bela coisa do mundo e deixar-nos flutuando no ar, ou a mais terrível e atirar-nos para o fundo do poço mais profundo.

Também existem pessoas que não são sensíveis às surpresas e em especial às que nos podem deixar felizes, nem que seja por umas horas, nem que seja por uns escassos minutos. Já às tristes, desagradáveis, as que nos causam angústia, há uma maior tendência de reacção de cada um de nós se lamentar porque só acontecem desgraças e são essas que relatamos a quem apanhamos à mão, muitas vezes sem pudor algum pelos sentimentos de quem nos escuta, que sabe-se lá o que lhes vai na alma.

Estarei eu a afirmar que no computo geral as pessoas são pessimistas e egoístas?

Não sei se o são, nem quero afirmá-lo. Quem sou eu para fazer julgamentos! Por  isso não passa de um comentário com base na minha experiência de tudo quanto me rodeia e do que posso observar. 

Eu gosto de surpresas que nos deixam um sorriso cúmplice no rosto, por mais pequenininhas que sejam! E sempre gostei. E acho que por muito que a vida me salpique de desgostos nunca vou deixar de, direi mais, adorar surpresas.   

Sair, finalmente, com a fadiga do trabalho esgotada, mas com a energia da vida  como se fosse o amanhecer, a porta do edifício onde durante o dia o meu emprego me mantem como refém, e ter inesperadamente à minha espera, alguém que me diz muito;

Ser um dia normal, daqueles que não são aniversários, nem dias de namorados, ou qualquer outra comemoração de tantas que agora existem e receber do nada um simples raminho de violetas, um bombom envolvido na sua prata vermelha, dourada ou qualquer outra cor, mas sempre apelativa, qualquer outra gracinha simples escondida no embrulhinho cujo lacinho segura cuidadosamente o papel de mil cores e outros tantos desenhos, que alguém com a sua imaginação preparou cuidadosamente para causar o impacto visual e emocional deslumbrante, quando a mão que o transporta se estende em direcção à minha que o recebe e sensibilizada agradece.

Os embrulhos têem para mim muito encanto. É o olhar da cor dos laços e papéis decorativos. E se dentro deles vier uma simples caixa de fósforos eu fico feliz na mesma. Porque alguém se lembrou que ao precisar dela eu a apreciaria muito mais enfeitada como um presente.

E aqui tenho de confessar uma coisa de que não me orgulho. Por duas ou três vezes, eu recebi da mesma pessoa presentes e ao contrário do que atrás afirmei, mostrei desinteresse, indiferença, mas Deus, se existe e o meu coração, sabem a emoção e a alegria que senti. Tudo que recebi dessa pessoa, uma simples mensagem escrita nun post-it está preciosamente guardado. E deste acto, irreflectido da minha parte, porque a minha razão para agir assim era um sentimento de desilusão por não poder retribuir, resultou que a magoei, se é que alguma vez tive esse poder, magoá-la, porque a levei a pensar que a minha reacção se devia a achar o presente insignificante.

Nada disso! Um deles tenho bem na minha frente enquanto agora escrevo, em cima da minha secretária, dentro de um solitário que comprei apenas para o colocar. Um ramo de botões de rosas, feitas de um material que me parece ser um papel especial.

E mais uns tantos, simples mas valiosos, se juntam a ele.

Pudessemos nós apagar de nossas vidas as atitudes impensadas, intempestivas, por vezes contraditórias até do nosso próprio ser e substitui-las por um doce olhar!

Ou melhor, quanto mais felizes seríamos se as conseguissemos evitar!

Não teríamos de pedir desculpa, nem sentiríamos o peso do arrependimento.

Serão estes  “os meus pequeninos nadas”? Alguém o saberá.

Mas voltando às surpresas, hoje o embrulhinho chegou-me sem laço e sem papel.

O telefone tocou, atendi e aos meus ouvidos soou a sempre agradável surpresa da voz de minha irmã. Mas rápidamente, pelo seu tom, senti que a seguir à alegria de a ouvir, vinha  algo de errado.

E aí estava ela! A surpresa que nos faz sentar escorregando devagar para a cadeira, ou encostar de encontro à parede que nos ampara.

Implacável na sua verdade! Feroz na sua realidade! Triste na sua essência!

Ouvi-a dizer, incrédula, que o filho de uma nossa amiga se tinha suicidado.

As suas palavras faziam eco na minha cabeça como se estivesse sonhando, recusando aceitar que estava acordada e a receber a notícia.

Mas sonho não era! Um pesadelo bem real que nos faz estremecer da cabeça aos pés e nos dá vertigens, sentindo que o chão nos falta!

Já de outras vezes ele tinha ameaçado, mas parecia que sempre escolhendo processos sem sucesso. Da vez anterior tinha tentado atirar-se da ponte, julgo eu. Mas desta vez escolheu-o definitivamente e se jogou para debaixo de um combóio.

Problemas psicológicos, agravados por um acidente...

Vinte e sete anos! Um inicío de vida!

Nesta idade é tempo rir e brincar, de viver a alegria da juventude, de traçar objectivos com entusiasmo, de lançar os dados e fazer as suas opções carregadas de esperança de que o seu futuro será brilhante e feliz.

Mais tarde acontece muitas vezes sentirmos que as nossas expectativas não foram tão alcançadas quanto imaginámos, que as nossas opções talvez não tenham sido as melhores, nunca o poderemos afirmar porque o “se”, não nos vai dar essa visão. Nos piores dos casos, sentirmo-nos frustrados porque o nosso presente, não corresponde ao que no nosso passado imaginámos para o nosso futuro. Olhamos para trás, vemos o filme da nossa vida e pensamos:

- Onde está a concretização dos meus sonhos da juventude? Onde estão os meus projectos? Onde está a felicidade que esperei? Que fiz eu de que me orgulhe?

A vida surpreende-nos umas vezes pela positiva, outras, infelizmente pela negativa!

Mas vinte e sete anos?

Como pode a vida permitir que factos tão terríveis atinjam tão tenras idades, retirando-lhes o prazer de saborear o seu encanto, cortando-lhes a possibilidade de um percurso natural em que naturalmente, aprenderiam a conviver com a realidade!

Como pode a vida dar-lhes a morte!

Parafraseando o poeta, que tão bem se expressou, apenas me ocorre citar:

- “...jaz morto, e arrefece ...o menino da sua mãe.” (Fernando Pessoa).

Para ti minha amiga um doce beijinho de pesar.  

 

 

Mafalda, 14 de Fevereiro de 2007  


publicado por mafalda-momentos às 16:14
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