Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

E para quem não conheça o Poema...

Em cima da minha mesa
Da minha mesa de estudo
Mesa da minha tristeza -
Em que de noite e de dia
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo
A mim
Também
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!

À cabeceira do leito,
Dentro de um caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora,
Que se parece contigo,
E que tem ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que Tenho,
De menino pequenino!...
No fundo da minha mala,

Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços - e nada leves! -
Atados com um retrós...

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta.–José Régio

 

 


publicado por mafalda-momentos às 23:57
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O meu conto de Natal

 

É Natal!

Nestes tempos que vivemos, a maior parte de nós quando pronunciamos esta simples frase, tempos em que tanto já vivemos, tristezas, desilusões, mágoas, que deixaram marcas profundas em nossos corações, marcando nossa existência até ao fim de nossas vidas, pensamos que ela nada nos diz. E interiormente dizemos é uma época como outra qualquer!

Mas é bom que não nos permitamos esquecer as coisas boas, ainda que poucas.

Pois eu vos digo que este Natal esta afirmação me tem feito pensar e cheguei à conclusão que com ela não estou de acordo.

Se é verdade que o Natal não é para nós a festa religiosa e a festejamos com mais rituais comerciais que outra coisa, que é uma época de enorme consumismo, ela é e tem sido sempre ao longo dos anos para as nossas casas, a festa da família.

Mas e para além do prazer que experimento na oferta duma lembrancinha a quem amo, é por isso, pela família, que hoje nós nos encontramos aqui em volta desta mesa partilhando com amor a companhia, a refeicção . Não estamos todos é certo e pelas mais diversas razões, mas sabemos que alguns dos outros que faltam, nalgum outro lugar se reunem também e tal como nós pensamos neles, eles, também pensam em nós.

Não deixamos ainda de nos lembrar daqueles que nos são queridos, mas já partiram.

Num mundo tão conturbado em que todos os valores antigos parecem ser questionados e dão lugar a novas tendências de educação, novas técnicas de ensinamento e novas psicologias, quer de princípios, quer culturais, diz-se por exemplo que não se deve mentir às crianças (nem a ninguém, digo eu). Estou plenamente de acordo.

Mas será mentir, fazer acreditar as crianças de que o Pai Natal existe? Oferecer-lhes a possibilidade do sonho, da ilusão, dessa magia singela representada nesse velhinho barrigudo de barbas brancas, bochechas gordas, enfiado no seu fato vermelho, que nesta noite, vagueia pelos céus num trenó guiado por ternurentas renas?

Recordo, tenho em perfeita presença, a noite de Natal em que pela primeira vez me lembro de deixar o meu sapatinho na chaminé para receber o meu presente de Natal, deixado nesse longínquo tempo, pelo Menino Jeus. Também os presentes não se abriam à noite, mas sim na manhã seguinte. Mudou um pouco a tradição da minha infância, mas o significado é o memo.

Lembro também ao detalhe a nossa casa de então na Vila Matias.

Custou-me a adormecer! Faltava-me a companhia a que estava habituada!

Ouvia na cozinha a azáfama de nossa mãe fazendo as filhozes. Minhas irmãs ajudavam e por isso quando as chamava, explicavam não poderem ainda vir deitar-se. Por fim adormeci de cansaço.

De manhã cedinho acordei e corri para a chaminé.

No meu sapatinho estaca uma boneca de celuloide, com não mais de uns quinze centímetros de altura e vestia um vestido de piquet cor de rosa.

Lembro-me com saudade do deslumbre que senti, como com ela brinquei e com que cuidado a tratei e lembro também como muitos anos mais tarde a perdi.

Andava no liceu no Colégio de S. José e tinha como colega e amiga a Ema que tinha uma irmã pequenita, pelos quatro aninhos talvez. Eram uma família de possibilidades financeiras muito acima da nossa. Viviam  numa vivenda no bairro em Linda-a-Velha. A avó da Ema, uma adorável senhora morava nos prédios novos que fizeram a seguir aos quintais das casinhas da Vila Matias.

Um dia a Ema veio com a maninha a nossa casa e enquanto ali estiveram a pequenina brincou com a minha boneca. Na hora de se irem embora a criança fez uma tal birra para levar aquela simples boneca, que não tive alternativa senão dizer à Ema:

- Deixa-a levar e depois trazes-ma de volta.

Nunca mais a vi! Senti-me com isso, tanto que ainda hoje me lembro de a ter perdido.

Mas curiosamente dou comigo a pensar que muita coisa de especial aquela boneca tinha, para que uma criança com um quarto cheio de outros brinquedos e bonecas aparentemente muito mais bonitas, se encantasse pela minha.

E tinha de facto!

Lembram-se de ter falado do meu deslumbre quando a vi? Eu acreditei que tinha sido um presente do Menino Jesus (Pai Natal se preferirem)!.

Mais tarde vim a saber que tinha sido comprada com as vossas magras ecónomias e o vestido confeccionado nessa noite por vocês maninhas.

Fiquei traumatizada por saber isso? É evidente que não!

Acho que antes pelo contrário. Sabendo já que os presente não eram dados pelo Menino Jesus, alojou-se no meu coração outro sentimento. O sentimento da gratidão. Da gratidão que então senti pelo sonho que vocês queridas manas me ofereceram.

Hoje eu tenho pena das crianças que não acreditam no Pai Natal!

Quando chegarem à minha idade elas não terão a lembrança desta minha recordação desse sonho.

Penso que a geração que gerámos viveu ainda essa magia. Eu epero que eles saibam transmiti-la a seus filhos, se e quando os tiverem.

Por tudo aquilo que aqui vos acabo de dizer eu afirmo, que acredito no Pai Natal sim!

Olho os vossos rostos surpreendidos e posso até ver um sorriso trocista nos olhos de meus filhos.

- Já estás na segunda infância – dirão.

É possível!

Sabem a nossa familia já passou por muito, mas atravessou todos as suas tristezas como uma família unida, com solidariedade, com amor, sem egoismo.

E é aí que mora o meu Pai Natal. Na minha família que sempre me amou, me protegeu, me acarinhou.

Muitas vezes me tem valido ao longo da vida esta esperança que sempre senti. Muitas vezes também, me tenho questionado de onde me vem.

E nestes últimos tempos, em que sei, tenho andado menos paciente, mais queixosa, sentindo até assustada que ela me começa a abandonar, me vi obrigada a reflectir.

É por isso, por aquilo que conclui que vos afirmei atrás  que acredito no Pai Natal. Vestido de família, deixou-me esse belo presente. A Esperança. E hoje penso que ela nasceu dessa magia, desse sonho, dessa noite de Natal de quando eu era criança.

Obrigada por ma terem dado. Eu a tenho guardado estes anos todos no meu coração e sei que jamais deixará de aí morar.

Ah! Se não fora por tudo isto... eu “já teria morrido, ou já teria fugido, ou já teria bebido algum tinteiro de tinta.”  (José Régio).

Amo-vos muito a todos.

 

 

Mafalda, 24 de Dezembro de 2008

(Foto do Pai Natal é minha) 


publicado por mafalda-momentos às 23:50
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Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

Olá João

Meu menino, meu primeiro menino.

 

Escrevo-te porque hoje acordei a pensar em ti.

Julgo não haver nenhum dia de que de ti não lembre, assim como de outras pessoas que foram ou são importantes para mim.

O teu nascimento foi uma riqueza que recebi como herança!

Tenho tantas recordações da tua infância!

Lembro como eras um bébé, uma criança bonita. Havia um colega de tua mãe que te chamava de “Principezinho”.

Como eras curioso, inteligente, como aprendias, como gostavas de usar no teu vocabulário as chamadas “palavras caras” e como as sabias usar na altura certa. Lembro como brincavas, os legos, os carrinhos...

Vivias numa casa com um corredor de 17 metros. Nele fazias uma fila em combóio com a tua colecção de carrinhos em miniatura da Match Box e não querendo exagerar, ela preenchia na totalidade, ou pelo menos quase, o comprimento desse imenso corredor. Lembro de vires brincar para o jardim da casa e por entre o gradeamento que o guardava ofereceres a meninos que passavam, carrinhos da tua colecção de que tanto gostavas. Lembro como eras generoso e como sentias bem fundo as injustiças.

Lembro de andares de triciclo a toda a velocidade nesse corredor. Todos os meninos mais velhos da familia, incluindo a Lurdinhas andaram de triciclo nesse corredor.

E lembro também que, como qualquer criança, eras carente de atenção, de carinho, de amor.

Vivi uns tempos na tua casa de infância. Dava-te o almoço, levava-te à escola. Não gostavas de peixe e bacalhau nem vê-lo!

Um dia em que não consegui fazer-to comer, como aliás nunca o fizeste, escrevi numa folha de papel - O João não comeu o bacalhau, colei-to nas costas e assim te levei à escola, deixando que toda a gente na rua visse o teu castigo. A tua professora, com conhecimentos pedagógicos muito superiores aos meus, quando chegaste, com ar de reprovação limitou-se, sem nada dizer, a retirar-te o cartaz e amachocando-o o deitou fora.

Nunca me esqueci e ao lembrar, sinto remorsos. Desculpa.

Naquele tempo eu era jovem, a idade em que temos a mania de que tudo sabemos e que somos detentores da verdade. Foi uma licção para mim sabes! Mas ainda não ao ponto de evitar cometer  erros com as crianças da nossa familia, o Pedro ao ensinar-lhe a tabuada, o Tiago com a comida. Não deves ter a noção de como ele era um horror para comer. A paciência que era preciso ter!

Só para te dar um exemplo de mais um erro meu, um dia obriguei o Tiago a comer farinha maizena sem ser cozida. Eu não sabia fazê-la, mas nem me dei ao trabalho de ler as instruções. Quando contei à minha mãe, a recordação que me ficou, foi a de ela levar as mãos à cabeça...

E ainda contigo João, lembro-me de quando pela primeira vez, surpreendido e deslumbrado, viste o céu povoado de luzinhas cintilantes – as estrelas.

Lembro-me de muitas vezes te levar ao emprego da tua mãe, à hora da saída. Iamos de electrico desde Algés até à Praça do Comércio. A carreira inteira. E nesse tempo ainda longa. Dali ao trabalho da tua mãe, no principio da R. do Ouro eram meia dúzia de passos.

Ias sempre do lado da janela claro, tudo observando e tudo perguntado. O porquê e o porquê dos porquês.

Um desses dias, chegados ao Cais do Sodré, um senhor que viajava no banco atrás do nosso, levantou-se para sair e ao passar por nós, pousou-te a mão na  cabeça, afagou os teus cabelos e disse:

- Que Deus te conserve sempre essa curiosidade.

Agora mesmo meus olhos se encheram de lágrimas por esta recordação.

Ah se eu pudesse apagar do mundo aquele dia 18 de Dezembro do ano de 1999!

Ele vive no meu mundo de fantasmas.

Daria anos de minha vida para que ele não tivesse acontecido.

Hoje esse meu menino é um homem. Mas um homem só, atormentado, de alma revoltada e coração triste.

Quanto me dói ver-te assim...

Vens às vezes um dia do fim de semana jantar a minha casa.

Há três semanas deste-me uma notícia que me encheu de esperança. Mas acrescentaste que te sentias triste e ainda que sentias saudades. Esboçaste um sorriso, mas tão triste! E eu nunca te tinha ouvido, após aquele dia, expressar a palavra saudade.

Abracei-te e apeteceu-me embalar-te como quando eras criança.

Fiquei o tempo todo pensando na notícia que me contaste e eu só desejo que a minha esperança não seja vã.

Já que aquele dia apagar não posso eu quero muito que não desistas, que esta nova seja um passo em frente, para que ao fim destes anos todos, consigas por fim aceitar, fazer o teu luto e encontrares na vida um lugar mais tranquilo, sem raiva e sem dor e em paz contigo próprio consigas a tua vida de agora viver.

E neste Natal, meu querido, é esse o presente que em segredo eu peço ao Pai Natal.

Assim ele me ouça!

 

 

 

 

Mafalda, 18 de Dezembo de 2008

 

 

 


publicado por mafalda-momentos às 20:28
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