Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Sonho

 

 Deixo-me deslizar lentamente na minha cama, a cabeça apoiada na almofada, os braços estendidos ao longo do corpo e deixo os musculos descontrairem. Fixo um ponto do tecto do meu quarto e devagarinho os olhos vão-se fechando, até que a luz se apaga.

Ouço baixinho os acordes do She do Elvis Costello. Sei de cor as seis musicas deste CD. Fui eu que as escolhi e gravei. A última chama-se Memories.

A pouco e pouco vou deixando de ouvir, até que escuto apenas o silêncio absoluto.

Nada existe. Sonho agora.

Sinto-me descalça caminhando sobre o chão, como se deslizando, em passos curtos e seguros, em direcção à porta aberta. Lá fora a luz é cinzenta. Vejo através dela a neblina que esconde o céu.

Olho tranquilamente a velha porta e instintivamente ergo meu braço num gesto gracioso de bailarina. Toco-lhe ligeiramente com a ponta de um dedo e suavemente ela desliza, sem resistência, sem qualquer som, até se fechar por completo.

Permaneço imóvel fixando a porta. Parece-me agora tão frágil! Diria até que é transparente! Do lado de dentro sente-se bem estar, aconchego, paz.

Por fim movo-me. Inclino a cabeça para o chão e vejo meus pés descalços, olho minhas mãos, sacudo o meu cabelo e sinto-me livre. Sorrio. Sinto-me como se estivesse levitando. Já não existe aquela porta!

Muito ao longe, como num sussurro, começo a ouvir o final da última canção do CD:

“...Goodbye, Goodbye, Goodbye...”.

Algo me inquieta então!

Tudo estava silencioso! Porque ouço agora?

Não vou ficar no sonho?

E ainda mais agitada pergunto:

- Está alguém a acordar-me? Eu não quero deixem-me ficar!

Não ouço qualquer resposta e apercebo-me que sou eu própria a acordar.

Olho a porta. É novamente aquela velha porta tantos anos aberta e agora fechada.

Precepito-me para ela agora correndo para a abrir novamente.

Se acordar tudo estará como antes. Meu oceano, meu mar, meu lago, meu rio, minha solidão serão de novo meus companheiros.

Com a porta fechada não sobreviverei com eles do meu lado!

Mas ela voltou a ser a velha porta de madeira empenada e ferrolho quebrado e tal como não se movia para a fechar, também não se move para a abrir.

Olho para todos os lados á procura de qualquer coisa que me ajude. Nada. Não encontro nada.

A única coisa que existe naquela sala é uma velha mesa onde repousa um simples lápis.

E de repente veio-me à memória um ditado popular: “Quando se fecha uma porta, abre-se sempre uma janela”

Num impulso agarrei o lápis, corri para a porta e com ele desenhei um postigo que de seguida abri.

Um vento frio e agreste bateu-me no rosto, neste meu rosto de olhar e sorriso triste que só lhe resta sonhar.

 

 

 

 

Mafalda, 12 de Setembro de 2007

 


publicado por mafalda-momentos às 15:35
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