Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Conversando com o vento

Foi um dia de muito vento.

Algumas nuvens negras, mas que rapidamente se deslocavam deixando o céu azul e o sol brilhar. E foi decerto o vento forte que as transportou não deixando que largassem os aguaceiros anunciados para hoje.

Tinha a janela da marquise toda aberta e a porta da cozinha para a mesma, aberta apenas com uma fresta para arejar.

E na cozinha executava uma daquelas tarefas caseiras sem qualquer graça.

Contrariamente ao normal não havia música, mas ouvia um barulho de fundo.

Quando realmente o escutei percebi que era o vento soprando pela fresta da porta.

E no som que produzia, pareceu-me, conversava.

Sorri e disse:

-Estás a falar comigo?

E de pronto ele se fez ouvir num palavreado apressado e entrecortando o seu som com vários cambiantes.

-Pareces irritado! Porquê?

Novamente ele retorquiu, num contínuo e mais apressado ainda balbuciar de palavras inauditas.

-O quê? Estás há que tempos a falar comigo e eu não te escuto? É isso que me estás dizendo?

-Desculpa se levei tempo a responder-te. Não te compreendi. Queres que feche a porta não é?

E mais forte, mais apressado, mais prolongado, emitindo sons ora mais graves, ora mais agudos, continuou a fazer-se ouvir.

Parecia zangado até!

-Estou a entender bem? Queres que abra a porta para tu entrares?

Emitiu um assobio que parecia um suspiro.

-Não estou errada? Estás a dizer isso mesmo?

O mesmo assobio.

-Mas se te abrir a porta vais entrar-me pela casa dentro, passear pelas divisões e encher-me tudo de pó que trazes contigo. Além disso tu pertences á rua.

Continuou com o seu palavreado rápido e de diversa sonoridade.

-Estás cansado de viver na rua e queres sentir o conforto da minha casa?

-Mas se entrares ela vai deixar de ser confortável.

O vento assobiou e parecia triste.

Olhei pensativa para a rua e havia sol.

Então perguntei:

-Se eu te abrir a porta, prometes que entras e não fazes estragos?

-E quando eu te disser para partires e fechar a porta atrás de ti prometes não ser teimoso?

Fez-se ouvir de novo com um assobio vivo. Como se assobiasse a uma rapariga bonita que na rua passasse.

-Isso quer dizer um sim?

O mesmo assobio.

-Bom vou confiar em ti!

Abri a porta e logo recebi no rosto uma lufada de ar fresco e a minha saia ondulou um pouco.

-Obrigada pelo abraço – comentei.

Saí da cozinha e passeei devagar  por toda a casa. Parecia mais fresca, mais viva.

-Então gostas?

Nada ouvi.

Voltei á cozinha e senti um arrepio.

-Acho que é tempo de saíres, estou a ficar com frio.

Aproximei-me da porta e voltei a perguntar.

-Está bem assim? Pode ser?

De novo o mesmo valsar da saia e a mesma aragem fresca na cara.

Fechei os olhos e saboreei esse sentir.

-Vou então fechar a porta.

E á medida que a ia fazendo correr na calha, o vento recomeçou o seu balbuciar de sons, apressando-se e subindo de tom ainda mais, como se sentisse receio de não ter tempo de dizer tudo.

-Tens razão! O meu lugar é na rua. Aí tenho espaço para viver.

E quase a porta fechada gritou bem alto.

-Mas obrigado pela hospitalidade. Fico grato por te conhecer.

E ficou o silêncio!

Sorrindo pensei – É bom sentir a imaginação!

 

Mafalda, 16 de Abril de 2009

 

 

 

 

 

 

 


publicado por mafalda-momentos às 14:56
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